O fotolivro Meu pai morreu três vezes surge da colaboração póstuma entre um morto e uma viva. Em um terreno cheio de ambiguidades, Clara Simas fabula o seu processo de lida com a perda e a presença reminiscente de Caveirinha — jornalista, figura iconoclasta e ator amador entre as décadas de 60 e 70 do Cinema Marginal na Bahia e do Ciclo de Super-8 em Pernambuco —, seu pai ausente.
Pendulando entre o documental e o fictício, esta narrativa autobiográfica desvela e recompõe faces desse personagem multiforme através do arranjo de diferentes fontes de imagem, enquanto aborda questões em torno do trabalho do luto e da elaboração analítica diante da sistemática ausência física de figuras paternas e do desaparecimento simbólico desses homens na trajetória de sujeitos adultos.
Nesta investigação, o luto é abraçado como um corpo presente na vida da autora, que convida para o jogo também vestígios dos desejos deste homem que um dia foi tantos. Juntos, e a partir da sobreposição de diferentes materialidades e camadas de tempo, pai e filha vitalizam a memória e os relatos sobreviventes — estejam eles contidos em uma fotografia, em um documento histórico, ou nas cenas dos filmes em que esse homem atuou e também neles várias outras vezes morreu.








