Da minha aldeia vejo quanto
da terra se pode ver do Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande
como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
– Alberto Caeiro
As fotografias de Luigi Ghirri (Reggio Emilia, 1943-1992) são conhecidas, por todo o mundo, pelos seus tons pastel, enquadrados num imaginário sereno, quieto, de quase suspensão, e assentes numa poética do quotidiano muito singular. Observar a obra de Luigi implica, portanto, seguir o modo como o seu olhar pousa sobre os objectos, no seu ambiente e na sua paisagem, que de outro modo permaneceriam inobservados.
As suas fotografias traçam, precisamente, um percurso mental que antecede o plano visual: conseguindo ser evocativas para lá daquilo que a imagem supostamente apresenta. Não importa, aliás, tanto aquilo que uma fotografia inclui, quanto aquilo que ela exclui: é precisamente naquilo que se encontra à margem, no espaço e nas suas divisões, nos cortes e nos enquadramentos, que encontramos a marca de Ghirri.
Um exemplo da renovada atenção que a sua obra tem merecido, assim como da actualidade das suas reflexões e do seu potencial epistemológico, é a recente reedição da colectânea italiana dos seus escritos e entrevistas intitulada Niente di antico sotto il sole (2021) que havia sido publicada primeiramente em 1997. E simultaneamente a publicação do volume de ensaios traduzidos para inglês e reunidos em The Complete Essays 1973-1991. A questão que nos surge imediatamente é: porque é que um fotógrafo deveria escrever ensaios?
Diversamente daquilo que poderíamos esperar, a proposta de Ghirri nestas páginas não se limita a propor simplesmente descrições verbais de representações visuais. Não é uma descrição pontual do seu trabalho, aquilo que devemos esperar; mais do que isso, aqui fala-se de método e de percalços processuais, tal como das motivações que o levaram a ter uma certa visão ou postura perante o seu trabalho. Pairando entre a fotografia, a música, a arquitectura e o cinema, Ghirri dedica alguns ensaios aos seus mestres mais próximos, mas também a alguns mais distantes, inaugurando assim uma viagem sentimental pelas suas fontes de inspiração – rastreando consonâncias e “semelhanças de família”.
Ler cada uma destas colectâneas será como povoar a atmosfera que circundava o fotógrafo, aceder a mais um fragmento do homem, para lá da imagem do artista. Luigi leva-nos, uma última vez, num dos seus amados passeios de carro, domingueiros: estrada fora pelos caminhos da província, com as canções de Bob Dylan a passar no rádio, e os vidros completamente abertos, para que a paisagem possa entrar enquanto respiramos diretamente o ar das nuvens.
Por estas linhas, encontraremos o seu olhar a flutuar, como já dissemos, sobre as coisas; aquele olhar míope, atrás das lentes baças, próprio de quem vivia com as coisas, entre as coisas, com uma consciência precisa, mas esfumada – capaz de fotografar a névoa e de fixar o instante, citando-o, para que “fotografar o mundo pudesse ser também um modo de compreendê-lo”.
Virginia di Bari (investigadora na Universidade de Palermo)
Tradução de Hugo Miguel Santos
Luigi Ghirri, ensaios completos
As fotografias de Luigi Ghirri (Reggio Emilia, 1943-1992) são conhecidas, por todo o mundo, pelos seus tons pastel, enquadrados num imaginário sereno, quieto, de quase suspensão, e assentes numa poética do quotidiano muito singular. Observar a obra de Luigi implica, portanto, seguir o modo como o seu olhar pousa sobre os objectos, no seu ambiente e na sua paisagem, que de outro modo permaneceriam inobservados.
As suas fotografias traçam, precisamente, um percurso mental que antecede o plano visual: conseguindo ser evocativas para lá daquilo que a imagem supostamente apresenta. Não importa, aliás, tanto aquilo que uma fotografia inclui, quanto aquilo que ela exclui: é precisamente naquilo que se encontra à margem, no espaço e nas suas divisões, nos cortes e nos enquadramentos, que encontramos a marca de Ghirri.
Um exemplo da renovada atenção que a sua obra tem merecido, assim como da actualidade das suas reflexões e do seu potencial epistemológico, é a recente reedição da colectânea italiana dos seus escritos e entrevistas intitulada Niente di antico sotto il sole (2021) que havia sido publicada primeiramente em 1997. E simultaneamente a publicação do volume de ensaios traduzidos para inglês e reunidos em The Complete Essays 1973-1991. A questão que nos surge imediatamente é: porque é que um fotógrafo deveria escrever ensaios?
Diversamente daquilo que poderíamos esperar, a proposta de Ghirri nestas páginas não se limita a propor simplesmente descrições verbais de representações visuais. Não é uma descrição pontual do seu trabalho, aquilo que devemos esperar; mais do que isso, aqui fala-se de método e de percalços processuais, tal como das motivações que o levaram a ter uma certa visão ou postura perante o seu trabalho. Pairando entre a fotografia, a música, a arquitectura e o cinema, Ghirri dedica alguns ensaios aos seus mestres mais próximos, mas também a alguns mais distantes, inaugurando assim uma viagem sentimental pelas suas fontes de inspiração – rastreando consonâncias e “semelhanças de família”.
Ler cada uma destas colectâneas será como povoar a atmosfera que circundava o fotógrafo, aceder a mais um fragmento do homem, para lá da imagem do artista. Luigi leva-nos, uma última vez, num dos seus amados passeios de carro, domingueiros: estrada fora pelos caminhos da província, com as canções de Bob Dylan a passar no rádio, e os vidros completamente abertos, para que a paisagem possa entrar enquanto respiramos diretamente o ar das nuvens.
Por estas linhas, encontraremos o seu olhar a flutuar, como já dissemos, sobre as coisas; aquele olhar míope, atrás das lentes baças, próprio de quem vivia com as coisas, entre as coisas, com uma consciência precisa, mas esfumada – capaz de fotografar a névoa e de fixar o instante, citando-o, para que “fotografar o mundo pudesse ser também um modo de compreendê-lo”.
Virginia di Bari (investigadora na Universidade de Palermo)
Tradução de Hugo Miguel Santos