Mantendo por um lado, num equilíbrio exímio, uma escrita depurada e assertiva, e, por outro, uma escrita profundamente poética (característica que é transversal na sua obra), Agota Kristof revela-nos, em A Analfabeta, os momentos chave da sua vida.
A partir de um número mínimo de episódios explorados em poucas páginas, concentra, desta forma, a matéria literária, em cada capítulo, com a letalidade e rigor de uma arma demolidora. Agota Kristof é, aqui, uma testemunha da sua experiência – desde a primeira infância até à entrada na velhice. Marcam-na a guerra, a fuga do seu país, a separação da família, a sobrevivência enquanto refugiada, na Suíça, e, sobretudo, a separação insanável para com a sua língua materna, o húngaro, e a luta permanente, que durará toda a vida, para conquistar o francês, a tal língua “inimiga” que a deixou de novo analfabeta, aos vinte e um anos, e que foi a principal responsável por ir aniquilando a sua língua materna.
