INSECTOS
Setembro 11 @ 5:30 pm – Outubro 3 @ 8:00 pm UTC+0
INSECTOS
(ou a ferida na fronte por onde começa a estrela animal)
“Era uma vez um lugar onde pássaros terríveis cantavam inspirados pela agonia dos insectos”
— Herberto Helder
Existe uma crueldade específica na beleza que nasce do sofrimento alheio. Herberto Helder nomeou-a com a
precisão de quem conhece a linguagem não como ornamento, mas como ferida; e Walter Benjamin ecoou-a
ao advertir que não existe documento de cultura que não seja simultaneamente documento de barbárie.
Vivemos num tempo em que essa equação se tornou obscenamente visível: as guerras transmitem-se em
directo; os genocídios geram feeds; a agonia tornou-se conteúdo, e este tornou-se espectáculo até gerar
indiferença — talvez a forma mais refinada de maldade que a modernidade alguma vez produziu.
Armadilha ética! Para lá dos que seguram a arma, mais numerosos são os que consomem este aparato sem
agir. Não há inocência estrutural, mas uma hierarquia de aves onde todos ocupamos um lugar.
E no entanto.
Mahmoud Darwish, que escreveu a partir do apagamento, recusou que a última palavra fosse dos pássaros:
“Sobre esta terra existe o que merece a vida” , dizia ele. Pensando a linguagem como um território que não 1
pode ser bombardeado, esta exposição nasceu: questionando quem agoniza para que o canto prossiga, e a
possibilidade de uma outra forma de ver — que não se alimente da indiferença, mas que a interrompa.
INSECTOS reúne obras de seis artistas que partem de domínios distintos para convergir numa mesma esfera
de tensão: o visível e o encoberto, o enfeite e a barbárie, o jogo do poder e a possibilidade da sua recusa.
O que escolherias ver se soubesses que ver é também uma forma de decidir quem agoniza?