Levar Caminho I – Manuel de Freitas

22.00

PRESSA DE VIVER

para o Zé, que nunca lerá este poema

Negro, trinta e dois anos,
dealer. Pensava que a guerra
no Kosovo tinha por motivo único
a resistência à conversão em euros
– e talvez nisso tivesse, afinal, uma obscura
razão. Noutra noite, vi-me obrigado
a explicar-lhe o melhor que pude
o que era o FMI – que ele decerto
interpretou como um partido de tugas
vagamente hermético- De facto, é outra
a sua economia: conto de xamon, pastilhas,
piropos de esquina, os dois ou três filhos
de que apenas bêbedo se lembra.

Mas não é bem disso que eu hoje
queria falar. Passámos a noite
lado a lado, no mesmo balcão.
Demorei algum tempo a cumprimentá-lo
– «tá-se?». Pediu logo grandes, imensas
desculpas por não me ter visto.
Que era «pressa de viver», garantiu-me,
aquilo que nos torna cegos
às evidências, ao rosto desse próximo 
que só por bíblico acaso amamos
– quando o ódio, mais discreto,
dá nome e sentido às ruas.

Fingi acreditar, procurei não
desmentir o seu olhar verde
vindo de outro qualquer planeta.
Seria difícil explicar-lhe àquela hora
a compulsiva demora de morrer
que me faz sair de casa e procurar,
entre ninguém, a pior das companhias: eu.

Acabou por levar para a rua
uma imperial de plástico, lembrado
talvez dos possíveis clientes
a quem ajudará a esquecer um emprego,
o desamor, o calor sinistro deste Verão.
Na verdade, pouco mais haveria
a dizer sobre este corpo ameno que
há vários anos se encosta às minhas noites.
Serve-me de escudo para os bárbaros mais novos
– e protege-se, o melhor que pode,
da rusga sem objecto a que chamamos vida.

(pp. 338 e 339)

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Descrição

Levar Caminho I
Manuel de Freitas

com capa de Luís Henriques
a partir de um fotograma de “Espelho” de Andrei Tarkovsky
e arranjo gráfico de Pedro Santos

Averno, 1ª edição
Lisboa, 2022
600 exemplares

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