Corpo Santo – Ruy Cinatti

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“Este livro reúne alguns dos poemas que Ruy Cinatti escreveu, policopiou e distribuiu, durante as décadas de 70 e 80, por alguns dos “largos mais tristes de Lisboa”, como assinala Manuel de Freitas na ‘Nota Introdutória’. Corpo Santo é, precisamente, o nome de um desses largos por onde Cinatti vagabundeou a sua lírica e a sua vida por esses tempos. Poeta simultaneamente místico e político, muitas foram as vezes em que encontrou a sua fé nas tabernas dessas bandas e nos pequenos heróis quotidianos que as habitam: “Em cada baiuca em que entrares aí é a Casa de Deus…/ mesmo que só lá estejam miseráveis publicanos como eu…/ e então… que festa grande… festa redonda… o Mundo…” (p.37).

Fruto de um rigoroso trabalho do antologiador, à excepção de três poemas, todos os restantes poemas estão datados, ajudando o leitor a situar o tempo e as circunstância de escrita destes versos ancorados na própria vida. Longe da alta torre onde muitos poetas habitaram, Cinatti preferiu a companhia de outros mais desgraçados:

LOUVAÇÃO

Louvados os simples do coração…
Os que inundam de ternura o mundo
e se acolhem aos braços de uma mulher ou de um amigo
com a mesma fé com que nasceram de regresso ao paraíso.

23.9.76
(p.42)

Essa procura do outro, do seu próximo, conduz esta poética a momentos de um lirismo claro e cristalino, jamais hermético, com uma forte vocação dialógica, expressa nas constantes dedicatórias (não tivessem, aliás, estes poemas sido oferecidos de mão em mão, como quem oferece uma bucha de pão ou um copo de vinho) e no modo como convoca outros poetas e humanos, outros semelhantes, como Pier Paolo Pasolini: “Ó Pasolini, tu mexeste-me de verdade e eu deixo ficar tudo escrito” (p.78).

Apesar da sua fé, conturbada mas inabalável, Cinatti nunca ambicionou a eternidade dos panteões líricos: escrevia como quem conversava, procurava fixar nas páginas em branco o instante preciso em que vivia. E nesse (im)preciso instante devolvia o verso, como quem brindava a mais um dia. E, é por isso, que ainda hoje o lemos como um nosso contemporâneo, alguém que apesar de vir de muito longe, de um tempo etéreo e bíblico, decidiu descer à terra para dizer aos humanos com quantas sílabas se faz a serena língua dos anjos: “O teu corpo é a Casa de Deus, usa-o./ (S. Paulo disse Templo… é… vem a dar ao mesmo, honra-o)” (p.36).”

Hugo Miguel Santos

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Descrição

Corpo Santo – Uma Antologia de Poemas Volantes
Ruy Cinatti

Selecção e Nota Introdutória de Manuel de Freitas
capa de Inês Dias
composto e paginado por Inês Mateus
82 págs.
2014
Averno

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